sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O que se sabe sobre o novo vírus Chapare, causador de febre fatal com transmissão entre humanos


Arenavírus costumam ser transmitidos a seres humanos pelo contato direto com roedores infectados, como mordidas ou arranhões, e também pelo contato com saliva, urina ou fezes desses animais.


 Por Alessandra Corrêa, BBC

Giro Icaraíma 20/11/2020

Um vírus raro que causa febre hemorrágica e pode levar à morte foi 

transmitido entre humanos na Bolívia, no primeiro caso documentado 

desse tipo de transmissão.

O surto ocorreu no ano passado, na província de Caranavi, no departamento 

de La Paz. Dois pacientes com febre hemorrágica Chapare, doença causada pelo vírus Chapare, infectaram três profissionais de saúde (um médico residente, um médico de ambulância e um gastroenterologista). Três dos doentes morreram, entre eles dois médicos.

O Chapare faz parte da família dos arenavírus, a mesma de outros vírus que causam diferentes tipos de febre hemorrágica. Os arenavírus costumam ser transmitidos a seres humanos pelo contato direto com roedores infectados, como mordidas ou arranhões, e também pelo contato com saliva, urina ou

 fezes desses animais.

A confirmação de que houve transmissão de pessoa para pessoa do 

Chapare na Bolívia foi apresentada nesta semana durante encontro anual 

da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene.

A descoberta é fruto de colaboração entre pesquisadores do CDC 

(Centros de Controle e Prevenção de Doenças, agência de pesquisa em 

saúde pública ligada ao Departamento de Saúde dos Estados Unidos), do Centro Nacional de Doenças Tropicais da Bolívia e da Organização Pan-Americana de Saúde.

Acredita-se que a transmissão entre humanos ocorra por meio de fluidos corporais (como

 

sangue, saliva, urina, sêmen e secreções) ou contato com objetos contaminados com fluidos corporais, inclusive durante alguns

 

procedimentos médicos, como intubação.

 "É muito provável (que a transmissão seja por meio de fluidos corporais),

 com base nas evidências que temos nesses casos e também em exemplos

 na literatura médica sobre outros arenavírus", diz à BBC News Brasil a virologista Maria Morales-Betoulle, uma das cientistas do CDC que 

participou da pesquisa.

Mas ela e outros cientistas ressaltam que, diante do pequeno número 

de casos documentados, são necessárias mais pesquisas para 

compreender como o vírus se propaga e causa a doença

Vírus transmitidos por fluidos corporais costumam ser contidos com menos dificuldade do 

que aqueles transmitidos pelo ar, como o coronavírus — Foto: Getty Imagens via 

BBC

Diagnóstico

Enquanto a atenção mundial continua focada na pandemia de coronavírus, cientistas como 

Morales-Betoulle trabalham para identificar possíveis novas ameaças.

Vírus transmitidos por fluidos corporais costumam ser contidos com menos dificuldade 

do que aqueles transmitidos pelo ar, como o 

coronavírus.

Mas a descoberta de que o Chapare pode ser transmitido 

entre humanos abre a possibilidade 

de surtos maiores no futuro.

Segundo o CDC, houve outro registro da doença em 2003, também na Bolívia, na província de Chapare, no departamento de Cochabamba. Naquele caso, o paciente morreu 14 dias após 

o surgimento dos sintomas.

Os cientistas, porém, não descartam a possibilidade de que,

 no intervalo de 16 anos entre o

 caso inicial e os de 2019, o Chapare tenha circulado sem ter 

sido identificado, confundido com outras doenças


"Como os sintomas são semelhantes aos da dengue, há a possibilidade de que tenha sido diagnosticado de maneira errada", observa Morales-Betoulle.

Entre os sintomas relatados nos casos de 2019 estavam febre, dor abdominal,

 vômito, sangramento das gengivas, erupções cutâneas e dor atrás dos olhos

 Morales-Betoulle afirma que o primeiro paciente foi inicialmente diagnosticado

 com dengue.

"O primeiro infectado era um trabalhador agrícola. Ele ficou doente, foi ao hospital, recebeu diagnóstico de dengue e foi enviado de volta para casa. Como continuava

 a piorar, retornou ao hospital", relata a virologista.

O genro desse paciente, que trabalhava com ele na lavoura, também foi infectado.

Em áreas agrícolas, roedores silvestres infectados podem contaminar cereais armazenados. Há evidência preliminar do vírus em roedores na região do surto, mas ainda não há confirmação de que eles foram os causadores da doença.

Morales-Betoulle ressalta que o genro passou a noite no hospital ajudando a cuidar 

do sogro, e há a possibilidade de que tenha sido contaminado lá.



Vírus tem esse nome por causa da região boliviana de Chapare, conhecida também

 por sua produção cocaleira — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Sem tratamento

Não há tratamento para a doença, e os pacientes recebem apenas cuidados para aliviar os 

sintomas, como fluidos intravenosos e remédio para aliviar a 

dor.

O CDC salienta que, devido ao pequeno número de casos documentados, as informações 

sobre o período de incubação (entre a exposição inicial e o desenvolvimento de sintomas) 

e a progressão da doença são limitadas.


 

Os arenavírus costumam ter período de 

incubação variado, de entre quatro e 21 dias.

Entre outros sintomas relatados nos casos de febre 

hemorrágica Chapare estão dor de cabeça, dor muscular e 

nas juntas, diarreia e irritabilidade.

Esses sintomas costumam ocorrer antes do sangramento, 

que ocorre no estágio mais avançado.

"Sabe-se pouco sobre possíveis complicações de longo prazo

 ou imunidade após infecção com o vírus", diz o CDC.

Morales-Betoulle destaca a importância da colaboração 

entre cientistas de diferentes países e organizações para a identificação dos casos. Ela observa que os pesquisadores isolaram o vírus e desenvolveram um teste para diagnosticar 

o Chapare.

Mas a virologista ressalta que é preciso continuar estudando 

o vírus para entender sua capacidade de causar surtos.

"Ainda temos muito a investigar", diz Morales-Betoulle.