terça-feira, 17 de novembro de 2020

Nova Jerusalém, a 80 quilômetros de Umuarama, um dia já foi o que pode se chamar de grande. Chegou a ter 3 mil moradores

 



Nova Jerusalém, a 80 quilômetros de Umuarama, um dia já foi o que pode se chamar de grande. Chegou a ter 3 mil moradores, cinema, posto de combustível, restaurantes e pelo menos sete serrarias, que juntas geravam empregos para centenas de pessoas.



O que era para ser uma cidade promissora acabou vivendo o ocaso. Hoje restam apenas ruínas de um tempo promissor, em que começaram a ser escritas histórias como a do empresário Sidney Oliveira, dono da bem-sucedida Ultrafarma, na capital paulista.

Era década de 70. Pessoas andavam apressadas. Caminhões faziam fila para abastecer e chegava a faltar combustível. A noite era intensa. As ‘mulheres de vida fácil’ que atendiam na boate não davam conta de tantos clientes. As notas de cruzeiros saíam pelas janelas.

A madeira vai ficando escassa e a cultura predominante na região, o café, sofre a derrocada de 1975, com a maior geada da história no Paraná. O tiro de misericórdia veio quando Nova Jerusalém foi excluída do mapa do asfalto.



Da população fervilhante restam somente 8 famílias, no máximo 30 pessoas. Gente como o funcionário público Delfreu Manoel dos Santos, o Freu, morador do lugarejo há 47 anos. Ele lembra com saudade dos tempos de ouro. “Vi a cidade crescer e acabar. A gente fica chateado mas acaba se acostumando”, diz.

Freu faz uma pausa e volta no tempo: “Isso aqui era um agito. O cinema chegava a ter quatro sessões num único domingo. Muita gente querendo ver os filmes”.



O traçado de cidade ainda resiste à ação do tempo. Há postes por toda parte. Ruas e esquinas ainda são visíveis, porém intransitáveis. E não levam a lugar algum.

A igreja desabou e foi construída uma outra, menor. Mesmo assim, só há missas uma vez por mês. O padre vem de Alto Paraíso (antiga Vila Alta), a 12 quilômetros.

Freu é dono do único comércio. O estabelecimento fica mais fechado que aberto. Quando os clientes precisam de alguma coisa batem palma na casa do proprietário.



Uma das memórias de Freu é a do antigo vizinho, o morador mais ilustre do lugar, o empresário Sidney Oliveira, que se transformou no principal garoto propaganda da própria marca. A primeira farmácia de Oliveira foi em Nova Jerusalém. No local onde vendia remédios só resta a tampa de uma fossa.

“O Sidney chegou aqui com muita dificuldade. Pegava dinheiro emprestado. Mas sempre pagava certinho. Era uma boa pessoa. Na época também fazia muito favor pro pessoal”.

Darly Alves

Outro personagem famoso do lugar é o fazendeiro Darly Alves, condenado em 1988 pela morte do líder seringueiro Chico Mendes, em Xapuri, no Acre. O crime ganhou manchetes no mundo inteiro por causa da luta pela preservação da floresta amazônica.

Darly também foi condenado em 1996, em Umuarama, pela morte do corretor Acir Urizzi, que seria um de seus maiores desafetos, entre os muitos que tinha. Passou anos cumprindo a pena acumulada no presídio da Papuda, em Brasília. Sempre se disse vítima de uma grande injustiça.



Voltando aos dias atuais, Freu se diz contente com a vida que leva no seu "pedaço de paraíso". “Pra mim esse lugar ainda é muito bom. Aqui é seguro e dá pra dormir de janela aberta nas noites mais quentes. A assistência na saúde também é boa. O médico vem direto”.

A pracinha não tem gente. Além das plantas, a única vida que frequenta o logradouro, tão bem cuidado por Freu, é um cavalo branco que aproveita a grama.

O sol vai embora. Os pássaros celebram a noite que chega. De repente, um silêncio absurdo. Três lâmpadas se acedem. É a vida que segue em Nova Jerusalém.



TEXTO OBEMDITO