sábado, 11 de julho de 2020

A odisseia de pacientes que sofrem os efeitos de longo prazo da Covid-19

Giro Icaraíma 
11/07/2020

A odisseia de pacientes que sofrem os efeitos de longo prazo da Covid-19


Estudos mostram que mesmo em casos curados ou assintomáticos da doença, sequelas como dificuldade respiratória, confusão mental e depressão podem persistir.





Seis meses depois de a epidemia surgir na China, a lista de sintomas 
causados pela Covid-19 não para de aumentar e milhares de pessoas
 de todas as idades ainda sentem seus efeitos depois de semanas e até
 mesmo meses de terem sido infectadas pelo novo coronavírus. São os
 "Covid de longo prazo".
Para Jenny Judge, psiquiatra em Londres, tudo começou em março,
 quando começou a sentir febre, tosse, dores de cabeça e dificuldade
 para respirar.


A estes sintomas "clássicos" foram se somando palpitações cardíacas, 
erupções cutâneas com sensação de queimação, alucinações 
auditivas e "dedos do pé Covid" com lesões e coceira.
Foram registrados mais de 12 milhões de casos de Covid-19 
em todo o mundo, com mais de 550.000 óbitos. Seis milhões 
de pacientes estão "curados". Mas isto não reflete totalmente 
a realidade.
Segundo um estudo com 143 pacientes italianos 
que tiveram alta hospitalar, publicado na 
quinta-feira (9) na revista médica Jama 
Network, 87% sofriam pelo menos de um 
sintoma 60 dias depois do início da doença.

Fadiga e dificuldades respiratórias

Outro estudo, publicado na semana passada pela Agência de Saúde
 Pública dos Estados Unidos, mostrou que, de 350 pessoas entrevistadas
ou três semanas depois de terem testado positivo para a Covid-19, aproximadamente 60% dos pacientes hospitalizados e um terço dos 
doentes em casa não estavam curados.
Os danos nos órgãos nas formas mais graves do novo coronavírus ou as sequelas do período passado em unidades de terapia intensiva podem 
explicar porque as pessoas hospitalizadas continuam precisando de
 atenção.
Mas os pacientes que permanecem em casa frequentemente não têm 
uma explicação para estes sintomas persistentes e, às vezes, enfrentam
 a incredulidade de seus empregadores e médicos, em particular quando
 não tiveram um exame de diagnóstico positivo ou quando seus sintomas 
não se encaixam na descrição oficial das autoridades sanitárias.
"Esta gente se sente muito abandonada. Alguns podem sentir um 
cansaço
 muito debilitante", observa Tim Spector, professor de epidemiologia 
genética 
no King's College de Londres, criador de um amplo projeto de vigilância
 dos sintomas da Covid-19.
Três milhões e oitocentos mil britânicos baixaram o aplicativo lançado em
 março, 300.000 nos Estados Unidos e 186.000 na Suécia. Foram 
identificados 19 sintomas e até um em cada dez pacientes apresenta
 pelo menos algum deles depois de 30 dias.
Tim Spector estima que 250.000 britânicos poderiam sofrer de uma 
"Covid de longo prazo". Considera que esta doença é "mais estranha" 
do que as doenças autoimunes raras, como o lúpus, que apresenta manifestações muito variadas.
"Algumas pessoas só têm problemas de pele, outras têm diarreia e 
dores no peito", comenta.

Febre, tosse, dor de cabeça não são os únicos sintomas da Covid-19, doença sistêmica — Foto: Wagner Magalhães/G1

Pode ser qualquer um

Os grupos de apoio reúnem milhares de pessoas nas redes sociais e
 surgiram palavras-chave sobre a Covid-19 em vários idiomas.
Muitos dizem que tiveram dificuldades em ser ouvidos pelo corpo 
médico, especialmente os que adoeceram no começo da pandemia, 
quando eram realizados poucos exames e que, portanto, não têm 
como provar o contágio.
Mesmo sendo médica, Jenny Judge admite ter enfrentando ceticismo 
no hospital. Um colega sugeriu que seu alto ritmo cardíaco poderia ser ansiedade.
Isto se explica, em parte, pelo fato de que os médicos que trabalham em hospitais estavam começando a ver estes pacientes com sintomas que
 até então não eram considerados suficientemente graves para justificar
 um acompanhamento hospitalar.
Mas esta mulher de 48 anos, sem histórico médico, também vê uma
 parte de negação. "Se você aceita que uma pessoa que se parece 
com você, que é médica, que tomou todas as precauções, continua 
doente depois de mais de cem dias, então também pode ser o seu 
caso", destacou.

Falsas esperanças

Paul Garner, professor de Infectologia na Liverpool School of Tropical 
Medicine, começou a escrever um blog no British Medical
 Journal, frustrado ao ver que continuava doente depois de um mês.
Ele sofreu terríveis dores de cabeça, respiração entrecortada, 
formigamento nos membros e uma vez achou que fosse perder 
a consciência. "Achei que estivesse morrendo, foi assustador", 
explicou.
O mais difícil de suportar foi a confusão e as mudanças de humor, 
comenta este médico de 64 anos, que, até então, gozava de boa saúde.
Entrevistado no 96º dia de sua doença, ele fala de uma melhora gradual, mas se
 preocupa de que pessoas vulneráveis possam sofrer pressões para voltar ao
 trabalho antes de estar preparadas.
Ainda não se sabe se estes sintomas persistentes são causados pelo
 próprio vírus ou pela resposta imune exagerada do corpo.
Segundo Tim Spector, alguns dos "Covid de longo prazo" ainda têm
 vestígios 
do vírus no organismo, mas não se sabe se isto implica que ainda 
sejam contagiosos.
Um estudo publicado em 2009 com 233 pacientes com
 Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), provocada 
por outro coronavírus, mostrou que quatro anos depois, 40% 
dos pacientes sofriam de depressão ou fadiga 
crônica.
Os jovens, menos propensos a desenvolver a forma grave da 
Covid-19 ou a morrer dela, devem ser advertidos de que a 
doença também pode debilitá-los durante meses, acrescentou
 Jenny Judge.

"É uma espécie de roleta russa, não se sabe
 ainda o que faz com que algumas pessoas 
tenham uma doença mais longa", destaca.

POR G1